sexta-feira, 25 de junho de 2010

Em memória a José Saramago

Que o seu caráctér a sua frontalidade e honestidade continue entre nós, pois nunca serás esquecido.
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Fala do Velho do Restelo ao Astronauta




Aqui, na Terra, a fome continua,

A miséria, o luto, e outra vez a fome.



Acendemos cigarros em fogos de napalme

E dizemos amor sem saber o que seja.

Mas fizemos de ti a prova da riqueza,

E também da pobreza, e da fome outra vez.

E pusemos em ti sei lá bem que desejo

De mais alto que nós, e melhor e mais puro.



No jornal, de olhos tensos, soletramos

As vertigens do espaço e maravilhas:

Oceanos salgados que circundam

Ilhas mortas de sede, onde não chove.



Mas o mundo, astronauta, é boa mesa

Onde come, brincando, só a fome,

Só a fome, astronauta, só a fome,

E são brinquedos as bombas de napalme.



José Saramago